Escrevo desde um lugar que a epistemologia dominante aprendeu a chamar de suspeito: o corpo. Não porque lhe faltem conceitos, mas porque lhe sobram memórias.
O corpo não é origem de erro; é arquivo. Um arquivo vivo, indisciplinado, que não se deixa reduzir a dado sem perder aquilo que o constitui.
Escrever desde o corpo é recusar a ficção da neutralidade que sustenta o saber moderno — essa posição impossível que observa a vida sem jamais se implicar nela.
O capitalismo tardio não é apenas um modo de produção. É um regime ontológico. Uma tecnologia de conversão da vida em recurso, da relação em insumo, do tempo em ativo. Não explora apenas trabalho — explora nascimento, vínculo, fertilidade, afeto, morte.
Sua racionalidade não se limita à economia: ela administra a própria definição do que conta como vida legítima. Federici mostrou que essa máquina começa pelo controle do útero; Mbembe mostrou que ela se completa quando decide quem pode morrer sem luto.
Entre um ponto e outro, tudo é gestão. Quando certos arquivos emergem — fragmentados, censurados, disputados — o debate público corre para uma pergunta que já é, em si, uma armadilha: “isso é verdadeiro?”.
Como se a verdade fosse um objeto isolável do poder.
Como se a exigência de prova não fosse ela mesma uma tecnologia de silenciamento.
Arendt já advertia: a verdade factual não desaparece porque é falsa, mas porque se torna indizível. O dispositivo não opera pela refutação, mas pela interdição do campo semântico. A acusação de conspiração não responde; ela fecha. Não debate crimes — protege a arquitetura que os torna pensáveis.
Não se trata, portanto, de demonstrar cada violência específica, mas de nomear a formação histórica que depende da possibilidade permanente da violência extrema.
O que chamo de patriarcalismo supremacista branco não é um insulto moral nem uma hipérbole retórica. É uma estrutura concreta: homens majoritariamente brancos, velhos e ricos, que concentram capital, ciência, Estado e narrativa.
Eles não precisam tocar o sangue. A violência que exercem é mediada, protocolar, terceirizada, higienizada. A vida só lhes interessa enquanto extensão da própria longevidade. O outro aparece como fonte — nunca como sujeito.
É nesse regime que o corpo feminino se torna campo de batalha privilegiado. Não por acaso. Por função histórica.
O poder moderno não governa apenas por repressão, mas pela gestão minuciosa da vida: nascimento, saúde, reprodução, normalidade.
A perseguição às parteiras, a medicalização compulsória do parto, a expropriação dos saberes sobre placenta, vínculo e cuidado não foram desvios da modernidade, mas suas condições de possibilidade.
Era preciso separar o nascimento da relação, o corpo do sentido, a vida do contexto. Só assim o corpo poderia ser governado como máquina e a vida convertida em recurso administrável.
Por isso, quando certas narrativas emergem nas margens — narrativas de exploração extrema, de violência sistemática, de captura de corpos — a reação não é investigativa, mas imunológica.
A pergunta não é “o que isso revela?”, mas “como impedir que isso seja dito?”. O horror não está no conteúdo isolado dessas narrativas, mas na familiaridade com sua lógica.
A ideia de que vitalidade, juventude ou longevidade possam ser obtidas pela captura do terror alheio não é uma aberração externa ao sistema: é sua metáfora mais honesta.
Nesse sentido, o adrenocromo não importa como dado empírico. Importa como sintoma. Ele condensa, em forma mítica, a fantasia central de um regime extrativo: a de que a vida do outro pode ser apropriada sob condições extremas, desde que suficientemente despersonalizada.
A exigência obsessiva de verificação funciona aqui como distração moral. O problema não é se isso acontece “de fato”, mas por que essa imaginação é imediatamente inteligível.
Há, no entanto, uma substância que não se deixa capturar por essa gramática.
A ocitocina não é arrancável, não é acumulável, não é governável como recurso. Ela não emerge do terror, mas da relação. Do cuidado. Da confiança. Do tempo compartilhado. Não é apenas um hormônio, mas uma ontologia: a vida que se produz no entre, e não na captura. Tudo o que ela exige — reciprocidade, continuidade, presença — é exatamente aquilo que um sistema baseado na pilhagem precisa destruir para continuar existindo.
Esse saber não nasce nos laboratórios, mas nos corpos femininos. Nas experiências do parto, da amamentação, do vínculo, da sustentação da vida.
Em outras formações médicas — não como pureza cultural, mas como desvio ético do mesmo processo histórico — a placenta não foi descartada como resíduo, mas reconhecida como resto significativo: continuidade, medicamento, arquivo do vínculo.
Não se trata de técnica, mas de ética. Uma medicina que reconhece a reciprocidade entre corpos não sustenta facilmente um sistema fundado na separação radical. Esses saberes não foram chamados de arcaicos por atraso, mas por insubordinação ontológica.
É por isso que toda denúncia de exploração extrema toca um nervo proibido. Não porque ameace indivíduos, mas porque ameaça a ontologia do saque.
Útero, placenta, vínculo, cuidado — tudo aquilo que afirma a vida como relação expõe a longevidade do poder como pilhagem histórica.
O que o patriarcalismo supremacista branco não tolera é a ideia de uma vida que não possa ser apropriada sem se destruir.
Falar de biopolítica agora é, portanto, recusar a neutralidade.
É afirmar que o corpo não é objeto de governo, de classe social ou de interesses desonestos, mas lugar de verdade.
Uma verdade que não pede autorização para existir — porque carrega, inscrita em si, a memória daquilo que o poder precisou silenciar para durar.
Autoria Alice Rubini Liedke escrito em 05/01/2026.